Por Alice
le temps n'existe pas
L'essentiel, c'est la contingence. Je veux dire que, par définition, l'existence n'est pas la nécessité. Exister, c'est être là, simplement; les existants apparaissent, se laissent rencontrer, mais on ne peut jamais les déduire.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
A morte (parte IV)
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Ato I - A Morte (parte III)
por Narrador
No dia 28 de novembro de 1988, Maria Lucia Aparecida dos Santos dá entrada no Hospital Santa Rita de Cássia às 17 horas e 30 minutos. Chovia e fazia frio em São Paulo. Exatamente às 18 horas e 38 minutos Maria Lucia dá a luz à uma menina. A menina posteriormente é registrada em cartório com o nome de Ana Beatriz Monteiro dos Santos. O céu desabava, 16 graus celsius. O pai de Ana Beatriz, Sérgio José Monteiro, não estava presente na hora do parto, que ocorreu precisamente às 18 horas e 38 minutos. O pai ficou preso no trânsito da Avenida Paulista, pois chovia e fazia frio. Sérgio chegou ao hospital às 19 horas e 43 minutos, exatamente 1 hora e 5 minutos depois do nascimento de sua primeira filha, Ana Beatriz Monteiro dos Santos. Chovia, ainda. Sérgio José subiu correndo as escadas, encontrou Maria Lúcia, que segurava Ana Beatriz no colo. Não fazia frio, sensação térmica no quarto era de 25 graus celsius. O pai segurou a filha no colo pela primeira vez. Lá fora fazia frio e chovia.
No dia 28 de novembro de 2018, após exatamente 30 novembros ininterruptos de sol e calor, fazia frio e chovia. Ana Beatriz Monteiro da Silva se levantou da cama em que dormia com seu namorado, Rafael Rodrigues da Silva, às 9 horas e 40 minutos. Ana Beatriz foi até a sacada de seu apartamento que ficava no décimo quinto andar de um edifício localizado em Santa Cecília, olhou para baixo e deixou que seu corpo caísse. O corpo de Ana Beatriz Monteiro da Silva atingiu o chão às 9 horas e 43 minutos da manhã de quarta-feira, 28 de novembro de 2018. Fazia frio e chovia.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Ato I - A morte (parte II)
por Beatriz
Eu
na verdade não tenho pensado muito no que dizer, acho que me acostumei a só
dizer sem pensar. Dizer por dizer. Ou nem isso. É um pouco complicado achar um
tempo pra isso enquanto não há tempo. Eu não estou reclamado, claro que não!
Minha vida está exatamente como eu queria: tenho um bom emprego, um apartamento
no centro da cidade, um carro... Eu tenho 35 anos, acho que já conquistei mais coisas que a maioria das
pessoas na minha idade.
Eu
acho que sou feliz de uma maneira geral. Eu gosto de manter uma rotina rígida, surpresas não me agradam, e eu faço de tudo para que elas não aconteçam. Mas quinta-feira passada aconteceu uma coisa: eu estava no
escritório e, de repente minhas mãos começaram a suar, tudo começou a rodar e
meu coração disparou. Chamaram uma ambulância, me levaram pro hospital. Eu
pensei que ia morrer. Lá no hospital eles fizeram um eletrocardiograma. Quando
eu peguei o papel com o resultado, me senti enjoada, não conseguia respirar. Descobri que estava viva. Eu
fiquei assustada.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
talvez alguma coisa
Coloquei o disco do Amarante pra tocar
talvez eu não tivesse mais nada a dizer
"o amor essa rima breve"
E há tanto tempo não me via
era como um
já não queria mais
não sabia mais
Desprovida da necessidade de sentido
fui indo
era como dois
queria mais
sabia mais
Aí já é amanhã
aqui é ontem
não existimos
nenhum dos dois.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Ato I - A morte (Parte I)
por Luiza
O que realmente incomoda sobre a morte não é somente o medo do desconhecido, mas também a angústia gerada até que ela chegue. Será que você sabe quando está morrendo? Eu tenho uma teoria de que a morte seria mais ou menos como tropeçar e cair: depois de tropeçar, e antes de seu corpo encontrar o chão, você tem um breve segundo de consciência e sabe que a queda é inevitável. Dessa maneira, um segundo antes de morrer, você teria plena consciência do que está acontecendo, mas não há mais nada a ser feito.
O que realmente incomoda sobre a morte não é somente o medo do desconhecido, mas também a angústia gerada até que ela chegue. Será que você sabe quando está morrendo? Eu tenho uma teoria de que a morte seria mais ou menos como tropeçar e cair: depois de tropeçar, e antes de seu corpo encontrar o chão, você tem um breve segundo de consciência e sabe que a queda é inevitável. Dessa maneira, um segundo antes de morrer, você teria plena consciência do que está acontecendo, mas não há mais nada a ser feito.
O que
as pessoas pensam quando estão morrendo? Se é que pensam. Talvez esse um
segundo de consciência pré-morte seja o segundo mais angustiante de toda a
vida.
Liv
disse que Ingmar Bergman passou toda a sua vida, 89 anos, sempre pensando que
iria morrer naquele dia. Ele pensava constantemente sobre a morte. É totalmente
compreensível, afinal nós já nascemos morrendo, nós passamos uma vida inteira
morrendo, aos poucos. Isso tudo sem saber quando será o último segundo.
Em 1º
de agosto de 1944, Anne Frank escreveu a última frase de seu diário, apenas 3
dias antes de ser descoberta pela SS e 6 meses antes de, aos 15 anos, morrer em
um campo de concentração, deixou inacabada uma vida inteira pela frente. Albert
Camus sofreu um acidente de carro e nunca terminou de escrever “O primeiro
homem”. Schopenhauer morreu aos 72 anos e deixou sua obra “como vencer um
debate sem ter razão” inacabada. E eu, se acaso morresse hoje, deixei minha
cama desarrumada.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
"Eu estou completamente apaixonada por você"
...é assim que eu deveria começar uma
conversa com você ou qualquer postagem-indireta (nesse caso, direta) ridícula
no facebook, se eu não fosse uma fingidora profissional. Mas eu sou. E utilizo
todas as minhas forças vitais para esconder uma única verdade: eu estou
completamente apaixonada por você.
O que há de errado nisso? É
mesmo necessário fazer um jogo em que o único propósito é tornar quase
inacessível, invisível, o simples fato de que eu estou completamente apaixonada
por você?
O medo de ser, ou parecer, ridículo nos
levará a lugares terríveis jamais habitados por homens ou mulheres que amam e
se apaixonam abertamente, livremente, transparentemente.
Todas as palavras que já
te disse até hoje não tem utilidade nenhuma. Somente poderiam ter um fim se
tivessem terminado em “eu estou completamente apaixonada por você”, mas não. Então
gostaria de deixar aqui registrado que quero trocar todas elas por apenas uma
frase: “eu estou completamente apaixonada por você”. Troco tudo, até mesmo aquelas que me fizeram parecer um pouco mais interessante pra você.
Eu quero desdizer esse
texto todo.
Eu estou completamente
apaixonada por você.
A sombra
Eu não sei como isso aconteceu, parece que estava sentado naquela poltrona há mais ou menos dez anos. Engraçado que não consigo me lembrar de quase nada depois da última vez que abri a porta, a não ser do rosto dela. Mas também não tenho certeza que ela tenha realmente entrado em casa.
*
Mais uma noite em que meu coração batia lento, sem pressa, sentado na poltrona da sala esperando o tempo passar. Ou parar, talvez. Afinal, não havia motivos para que a manhã chegasse.
Lá fora uma garoa fina caía.
Escutei algo bater na porta, mas imaginei que fosse o vento. Ouvi novamente e então me levantei. Ao abrir a porta me deparei com a figura de uma mulher, ela carregava duas malas e vestia um sobretudo preto. Não perguntei quem era ela, deixei-a entrar. Ela tampouco se preocupou em apresentar-se. Seu rosto tinha algo de familiar, mas não conseguia me lembrar ao certo. Imaginei que fosse culpa da má iluminação de minha casa.
Ela olhava tudo em volta com um ar de superioridade, como quem já conhecesse aquele lugar e o julgava sem medo. Finalmente resolvi perguntar quem era ela.
- Gostaria de um lugar para ficar, apenas por uma noite. Não se preocupe, posso dormir no sofá se for preciso – disse ela, ignorando minha pergunta.
- O seu rosto me parece familiar, mas não consigo me lembrar de onde te conheço. Quem é você? – insisti.
Ela continuava a me ignorar e me respondeu que a casa tinha a minha cara.
- Ouvi dizer que trabalha como entregador no mercadinho da esquina, cansou-se dos livros? Muito me admira essa sua guinada ao trabalho braçal.
Apenas me calei diante de sua fala. Como seria possível que soubesse disso?
- Você tem uma mania horrível de desconfiar de tudo e todos. Isso é realmente muito chato! Achei que com o passar dos anos iria diminuir, mas, ao que me parece, só aumentou.
- Onde estão suas malas? – perguntei atordoado com aquelas informações. Como seria possível ela dizer aquelas coisas?
- Devidamente acomodadas embaixo da cama – ela disse como quem já se sentia totalmente confortável.
*
Eu não sabia quem era ela, mas deixei ela ficar. Ela conhecia todos os buracos e rachaduras das paredes. Ela tinha acabado de entrar, mas a presença dela já fazia parte daquela casa há anos e, só agora, eu conseguia enfim vê-la.
*
Sentada na poltrona, ela me perguntou se não iria oferecer uma bebida, porque afinal, segundo ela, as noites são longas e algumas até parecem anos. Fui até à cozinha e voltei com um copo de whisky.
- Mas que porcaria de whisky! Isso me lembra aqueles jantares horrorosos na casa da sua avó. Eu me lembro de você se escondendo nos cantos para não ter que falar com ninguém. – disse a Mulher, obviamente irritada por tê-la oferecido um dos meus piores whiskys.
Perguntei do que ela estava falando, ela apenas me respondeu com um sorriso irônico.
A mulher levantou-se com seu copo e andou em círculos pela sala, e então me disse:
- Francamente, esse lugar é desprezível! Um amontoado de coisas velhas. O pior de tudo é o que você guarda embaixo da cama e dentro dos armários. Terrível!
Fiquei sem jeito e um pouco irritado, afinal foi ela quem entrou aqui sem mais nem menos.
- Mas eu nem te convidei para entrar. – disse à ela.
- Você nunca convidou ninguém, nunca fez nada sem sua mãe. Me espanta ver que conseguiu chegar até aqui, ainda que esse “aqui” seja assim. Sua sorte é que depois da sua mãe, ainda teve Marta. Por falar nisso, onde está ela?
Marta? Ela não podia estar falando sério. Quem pensa que é, pra chegar em minha casa e despejar todas essas coisas?! Não tive tempo de responder. Ela logo começou a falar:
- Não! Não fala! Deixa que eu adivinho... foi embora? Te deixou? Sumiu? Sabia! Com certeza cansou-se de ser sua babá. Deve ser terrível viver com um homem como você. Olho para sua cara e fico imaginando como vocês transavam. Você não devia gostar, não é? Seria como transar com sua mãe. Patético!
*
A verdade é que um dia eu acordei e Marta, minha mulher, não estava mais aqui. A mesa do café da manhã estava posta, a xícara ainda estava quente quando cheguei à cozinha. As roupas dela ainda estavam no armário, então imaginei que voltaria mais cedo ou mais tarde. Ela vai voltar. Eu acho.
*
Estava cada vez mais irritado com aquela mulher.
- Não lhe devo explicação alguma. – eu disse.
- Como não? Você me deve muito. É inaceitável que seja assim tão imbecil. Marta não irá voltar. Sua mãe muito menos.
- Como sabe disso?
- É óbvio! Você sabe disso também. Aliás, você teve certeza disso na hora em que Marta, sem hesitar, girou a maçaneta da porta. Ela não precisou lhe dizer nada, havia um silêncio retumbante.
Ela havia ultrapassado todos os limites. Não era nada daquilo. Não era bem assim. Ela não sabia de nada. Ela não podia saber de mim.
- Pode tentar dizer o que quiser. Mas, de fato, o que te aflige é que não pode suportar suas próprias fragilidades, prefere fugir. Deixou morrer sua mãe em uma cama de hospital, sozinha. Incrível como ainda consegue dormir com isso.
Fiquei aflito, comecei a tremer e suar frio. Perguntei-a de quem estava falando. Ela me olhou calmamente e pediu que pegasse uma bebida para mim e enchesse seu copo.
*
Somente um idiota pode esconder sua própria sombra; inveja, humilhação, repressão, e toda sorte de sentimentos que não estamos dispostos a sentir. Não é simplesmente por estarem no escuro que desapareceram, ainda continuamos a senti-los no buraco da alma, eles passam por lá, indo e vindo, mas todas as vezes que passam, grudam nas paredes, são na verdade o próprio buraco.
*
Eu não sei ao certo porquê, mas comecei a me explicar.
- Não foi minha intenção, eu não sabia o que fazer. Aquele lugar fedia. Você já sentiu o cheiro da morte?
- É igual ao seu e o meu.
- Não.
- A gente apodrece um pouco mais a cada dia. Até que chega o dia em que nossas entranhas estão todas corroídas e não se pode mais sustentar a vida. Me fala a verdade, você não suporta estar perto de nenhum ser humano, até mesmo dos que cheiram mais vida do que morte.
De onde ela tirou aquilo? Não fazia o menor sentido. Até que ela me disse que era algo muito fácil de perceber, pois não havia ninguém lá, além de mim.
*
Eu não suportava Marta, não suportava minha mãe, minha avó. Elas riam, riam demais! Viviam como se nunca fossem morrer.
Eu não quero lembrar disso.
*
Eu sabia porque ela estava lá. Pessoas que aparecem na sua casa depois do sol se pôr, são como ratos e baratas.
- Você é desprezível! Nem sei porque te deixei ficar tanto tempo – eu disse.
- Você sabe sim.
Eu não queria mais falar daquilo, não queria falar de nada sobre mim. Perguntei-a porque não falava sobre ela.
- Não há nada que eu possa dizer que você já não saiba. – disse ela.
- Você é completamente maluca.
- Existem só dois tipos de coisas na vida: aquelas que acreditamos existir e aquelas que ignoramos. As ignoradas, geralmente, são as que nos trazem mais sofrimento.
- Não vai falar nada sobre você? – insisti.
- Eu já disse.
Fiquei nervoso e gritei:
- Por que meu copo está vazio? Traga o maldito whisky!
Ela me respondeu que eu havia bebido a garrafa inteira.
- Por que você não pega as suas coisas e vai embora? Já está quase amanhecendo. – disse já sem a menor paciência.
- Que coisas? – ela respondeu.
*
Ela estava aqui, não só naquela noite, mas em todas as outras. Bebendo meu whisky ruim e arranhando minhas paredes. Mas quando amanhece, ela dorme e depois se arrasta pelo dia com sua ressaca, esperando o próximo copo de whisky.
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